Traduzindo São Bernardo
Apontamentos a esmo
I.
Tenciono contar minha história. Difícil.
Infelizmente, não possuo o bom costume de anotar a data quando leio um livro. Na verdade, muitas vezes leio vários volumes concomitantemente, parando e retornando conforme o que me dá na telha ou as condições da vida. Por isso, não sei exatamente quando li São Bernardo pela primeira vez. Posso dizer, contudo, que ainda estava em meus anos adolescentes, quiçá com uns 12 ou 13 anos. Aqui me balizo na leitura de outra grande obra do romancista, Angústia — esta sim da qual tenho certeza de quando li, depois de passar por uma decepção amorosa em tempos de moleque. De qualquer forma, São Bernardo veio antes, disso não tenho dúvida. E, na dianteira, provavelmente Vidas Secas, leitura obrigatória em qualquer escola brasileira.
Na antiga casa de meus avós, perto da Serra da Cantareira, em São Paulo, havia duas coleções de livros na estante da sala: uma, da qual não me lembro muito bem, era uma série de biografias de personagens históricas (tentei ler a de Napoleão, mas era ininteligível); a outra, era o conjunto das obras literárias de Graciliano Ramos publicadas pela editora José Olympio, em 1953. Nela estavam incluídos Caetés, São Bernardo, Angústia, Vidas Secas, Insônia, Infância, e o maravilhoso Memórias do Cárcere, em todos os seus quatro gordos volumes. Faltam as cartas e os relatos de viagem do escritor, mas é um bom apanhado dos títulos mais famosos de um de nossos mais representativos escritores do século XX. Como essa coletânea foi parar na estante da casa de vovô e vovó eu não sei bem (nunca vi ninguém remexendo nos livros), mas quando o vovô morreu e antes que vovó mudasse de casa, peguei os livros para mim; estão aqui na minha estante, junto do Missal Dominical Tridentino que vovô usou a vida toda. Foi neles que li o meu Graciliano, e eles que me acompanharam do Brasil ao Japão.
Entre todos os romances, contos, e até mesmo dos relatos de perseguição, meu favorito sempre foi São Bernardo. Com tantas criações fantásticas na literatura mundial, com tanta coisa boa para se ler — e sendo a leitura grande parte do que faço na vida —, é difícil escolher apenas uma e dizer que é a sua favorita; não sou temerário a esse ponto. Contudo, se levarmos em consideração excelência literária, apego emocional e gosto pessoal, São Bernardo está, sem sombra de dúvida, entre meus cinco títulos mais queridos. Não é à toa que mesmo antes de traduzi-lo ao japonês eu já o havia lido mais de dez vezes. Periodicamente o revisito, ou na íntegra ou apenas em passagens que me marcaram. Paulo Honório e Madalena são companheiros desde há muito, e desde a primeira leitura nunca desapareceram completamente de meus horizontes. Algumas personagens são assim: um dia entram na sua consciência e ficam residindo lá, referenciais para as experiências futuras, conselheiros fictícios que habitam a memória imaginária. Dissecar tais presenças é meio análise literária, meio autoanálise. Talvez seja esse o ímpeto deste texto.
Antes de continuarmos, um fatídico aparte: ser tradutor não era nem é minha prioridade. Por anos, me esquivei desse trabalho. O empurrão nas costas me foi dado por um colega — ele, sim, especialista em literatura brasileira e tradutor. Nas conversas pelos corredores da universidade, entre uma aula e outra, tomando uma cerveja depois de algum congresso, começamos a discutir a possibilidade de traduzirmos São Bernardo. Masayuki Kibe, mais diligente do que eu, anotou ter lido o romance em 29 de abril de 2005. Ponderando sobre a habilidade de Paulo Honório escrever em japonês, decidimos, quase por capricho, tomar a eito a empreitada — e o que se seguiu, mais ou menos entre 2024 e 2026, do início do projeto até a publicação de nossa tradução, é o que tento contar aqui.
II.
O prólogo foi longo, pois então vamos à narrativa. Talvez deixe de mencionar particularidades úteis, que me pareçam acessórias e dispensáveis. Confiemos nos leitores.
A tradução de São Bernardo, como disse, começou como algo um tanto lúdico. Ambos temos nossas próprias linhas de pesquisa às quais nos dedicamos, e o projeto foi combinado sem muita seriedade e sem prazo para ser terminado (isso mudou posteriormente; mais a seguir). Ainda assim, decidimos nos enveredar pela prosa de Graciliano e dar início aos trabalhos.
A teoria da tradução — o estudo sistemático da transposição linguística entre línguas, enquadrado em discussões teóricas com desdobramentos em diversas veredas intelectuais — não é minha especialidade. Tampouco me considero uma autoridade em literatura brasileira, quanto mais especificamente na obra de Graciliano Ramos; qualquer um que dê uma olhada no meu perfil verá rapidamente em que áreas tenho expertise. Pondo os pingos nos is: estou aqui metendo o bedelho onde não fui chamado. Por fim, embora a tradução seja conjunta, as opiniões expostas neste ensaio são somente minhas e não representam necessariamente a visão do professor Kibe. Recomendo a leitura de dois artigos escritos pelo meu companheiro de jornada, que tratam respectivamente de Madalena e de Paulo Honório; em ambos, o autor destrincha questões relativas à tradução de maneira muito mais sistemática do que farei daqui para frente.1
Feitas essas ressalvas, posso escrever mais livremente. Não creio dizer asneiras ao afirmar que qualquer tradução é um processo de reinvenção: algo será sacrificado, muitas coisas terão que ser mudadas, e a imaginação e a competência do tradutor serão testadas constantemente. Isso vale para toda obra literária, mas com Graciliano a coisa foi um pouco mais complexa. Famoso por suas frases curtas e sem excesso, por uma gramática tersa e períodos bem recortados, ao vertê-lo para qualquer língua todo cuidado é pouco. (O mesmo talvez possa ser dito de Ernest Hemingway e de tantos outros autores, e não quero acusar o Velho Graça de ser o único a impingir tais dificuldades nos pobres tradutores de sua obra.) Acontece que, no romance em questão, o buraco é ainda mais embaixo: a prosa de São Bernardo não é a prosa típica de Graciliano, mas sim uma prosa retraduzida "do português para o brasileiro" — como ele mesmo conta em carta à esposa Heloísa (conferir os artigos do Kibe). Isso significa que muito do que está escrito em São Bernardo é colorido nas aquarelas do Nordeste brasileiro, especificamente de Alagoas. Uma forma simplista de expressar a situação seria dizer que São Bernardo abunda em regionalismos. Mas não é só isso. Os regionalismos não são usados como tempero para dar sabor exótico à história de Paulo Honório; são sua língua, a única na qual sabe se expressar ao contar sua história. Extirpar o texto das especificidades da linguagem do narrador é empobrecer tanto o texto quanto Honório enormemente e fazer um desserviço às letras brasileiras e à arte de Ramos. A consciência desse fato — se por ora causadora de enorme alegria para o leitor que se aproxima do romance — tortura quem pretende vertê-lo para qualquer língua que não seja o português. Nosso calvário tradutório teve início aí: como fazer esse homem falar em japonês?!
Talvez alguns exemplos sejam ilustrativos. Comecemos pelo título. Em português, São Bernardo — ou melhor ainda, S. Bernardo. O título não é o nome do protagonista, nem o de sua biografia, nem algo semelhante: é a fazenda de São Bernardo, palco da ação, que ocupa o papel central. Entretanto, até começarmos a ler o romance, não sabemos do que se trata o título. Será o vulgo santo? Será uma cidade? Um rio? (Lembrem-se: o Nordeste tem o São Francisco, por que não um São Bernardo?) Algum outro toponímico? O leitor calouro ignora, mas Paulo Honório não necessita de qualificativos: São Bernardo é São Bernardo. Para ele, o lugar mais importante do mundo.
Pensando assim, parece-me que a escolha de Graciliano em deixar o nome da fazenda sem um determinante no título não foi coincidência. Por isso mesmo, um dos nossos cuidados foi eliminar a palavra "fazenda" que geralmente é inserida quando o título é citado na literatura acadêmica japonesa. Não, não é "Fazenda São Bernardo". É São Bernardo e ponto final. Pode parecer uma questão de pouca importância, mas foi uma escolha deliberada.
Mais um caso: que tipo de "eu" Paulo Honório deve utilizar? Aos falantes de português (somente com nosso "eu") ou inglês (com o altivo I, sempre capitalizado), a pergunta pode soar estranha, mas quem domina o japonês saberá que há diversas maneiras de expressar a primeira pessoa do singular de acordo com a idade, o sexo, a situação, a época, entre outros fatores. Para nós, tradutores, ele deveria dizer watashi ou ore? Talvez washi, já que beira os cinquenta? Será que muda o pronome de acordo com a situação? (Eu sou boku com amigos, ore no bar, watakushi em discursos formais…)2 Complicado. Muita saliva foi gasta discutindo esse ponto. Ficamos com watashi para Paulo, em caracteres chineses (Madalena ganhou um watashi em hiragana, um silabário fonético de origem feminina). Graciliano provavelmente gargalhava do túmulo.
Os exemplos são incontáveis e vou parar por aqui. Até hoje não sei bem o que Casimiro Lopes fazia sem beber água na beira do Navio. Por mais de uma vez tivemos que nos debruçar sobre bibliografia especializada, dissertações de mestrado e teses de doutorado, traduções para o inglês3, o italiano e o francês, recorrer a dicionários variados4 e a buscas infindáveis na internet, a fim de elucidar o sentido de uma expressão ou de um período. O processo foi longo, mas os quatro primeiros capítulos foram os mais árduos. Por quê? A resposta parece simples: prática. Quanto mais se faz algo, melhor nos tornamos em executá-lo. Nosso Paulo Honório tinha dificuldades em falar japonês nos quatro primeiros capítulos; depois, parece ter engrenado.
III.
Como disse anteriormente, as pesquisas sobre São Bernardo são muitas e bem detalhadas. Uma rápida busca na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações mostra mais de cem resultados. Teóricos clássicos de nossa literatura, como Antônio Candido e Alfredo Bosi, também se debruçaram com esmero sobre a obra de Graciliano. Toda essa riqueza crítica já existente nos deu lastro para continuar nosso projeto. Traduzir não é só verter de uma língua a outra: é necessário embasamento. Quanto mais no nosso caso, apresentando uma obra inédita no mercado editorial japonês (Vidas Secas já existe, mas está praticamente sozinha), e tendo que contextualizar República Velha, voto de cabresto, clientelismo e Revolução de 30, entre muitas outras coisas.
Aqui talvez seja importante mencionar a primeira adaptação ao cinema da obra, de 1972, dirigida por Leon Hirszman (1937–1987). No papel de Paulo Honório, Othon Bastos; no de Madalena, Isabel Ribeiro. O elenco conta ainda com Nildo Parente como Padilha, Mário Lago como Nogueira, Jofre Soares como Padre Silvestre, e Rodolfo Arena como Dr. Magalhães. A trilha sonora (inesquecível, diga-se de passagem) é de Caetano Veloso, e a fotografia de Lauro Escorel. Foi o primeiro filme distribuído pela Embrafilme — e sofreu sete meses de retenção pela censura da ditadura militar, o que causou a falência da produtora Saga. Não obstante, o longa foi amplamente premiado: recebeu o Prêmio Air France de 1973 nas categorias de melhor filme, diretor, ator e atriz, além da Coruja de Ouro de melhor diretor e do prêmio de melhor ator no Festival de Gramado. Em 2015, foi listado pela Abraccine entre os 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
Como obras de arte, a literatura e o cinema, embora muitas vezes dialogando entre si em uma relação dialética, devem ser tratados como expressões distintas e de forma alguma uma subjugada ou menos importante do que a outra. "Assisti ao filme, mas o livro é melhor" ou "sem o filme, o livro não ganha vida" são frases divertidas de se dizer, mas profundamente ancoradas em opiniões subjetivas. Não faz mal, mas é bom lembrar que cinema também é uma forma de tradução. Tendo dito isso, o São Bernardo de 1972 é, possivelmente, a destilação mais fiel possível do texto de Graciliano. Não é à toa que edições atuais do romance, agora que a obra do escritor está em domínio público, às vezes estampam na capa o Paulo Honório eternizado por Othon Bastos.5
IV.
Vou entrar em meandros da trama, então caso você não queira vulgos "spoilers", pare de ler por aqui.
Pergunta curta e grossa: do que fala São Bernardo? É a história de Paulo Honório, narrada em primeira pessoa pelo protagonista em forma de suas memórias. Órfão e pobre, Paulo Honório sai da poeira e, com muito trabalho e abundante ardil, apodera-se das terras da fazenda que dá nome ao romance. Torna-se chefe político, influente e rico. Casa-se com a professora Madalena, muito mais jovem que ele, mulher letrada, de origens humildes também, mas, diferentemente do marido, ainda simpática às camadas menos favorecidas. O conflito é inevitável e se manifesta em um ciúme irracional do marido. O casamento acaba em tragédia, com o suicídio de Madalena e a dissolução do lar, incluindo os agregados. Como pano de fundo há o colapso da República Velha e a mudança da ordem social com a Revolução de 30. Sozinho, Paulo Honório escreve sua história.
Assim exposta, a trama não passa dos ossos que compõem a narrativa. Pensando somente nessas características básicas do romance, não é difícil achar paralelos em outras grandes obras da literatura universal: um garoto pobre que se torna rico está presente em David Copperfield e em tantas outras histórias de rags to riches; o ciúme que consome o narrador e condena a esposa ecoa Otelo, de Shakespeare; o casamento infeliz entre dois mundos irreconciliáveis, com o suicídio da esposa como desfecho, remete a Madame Bovary, de Flaubert; e a obsessão do narrador pelo ciúme que destrói o próprio casamento está também na clássica novela de Tolstói, A Sonata a Kreutzer. E por aí vai. Está mais do que claro que a arte de São Bernardo não se esconde somente na temática, mas em como os motivos literários são desenvolvidos em íntima relação com a linguagem. Diante da perspicácia de Graciliano Ramos, é difícil evitar a palavra ourives — aquela do famoso soneto de Bilac, "Profissão de Fé". Não por acaso, o caráter flauberiano de Graciliano é ponto recorrente na crítica especializada: como Flaubert, ele era obcecado pela palavra exata, pela frase sem gordura, pelo ritmo milimétrico da prosa. Eis o esqueleto da história. Nada — repito, nada — é coincidência ou descuido em São Bernardo: cada termo, cada período, cada cena é milimetricamente planejada e desempenha um papel na construção do mosaico final que é a narrativa de Paulo Honório.
V.
Muito papel e muita tinta já foram bem gastos esmiuçando a arte do escritor ao compor a trama que se passa na fazenda. Não é minha intenção destrinchar a estrutura do romance por completo aqui. O que gostaria de fazer é chamar atenção para o processo de leitura verdadeiramente atenta e para como o processo tradutório me auxiliou a perceber recursos e ganchos literários utilizados por Graciliano na construção da narrativa, mesmo tendo eu a certeza de já conhecê-la profundamente. Para tanto, não me debruçarei sobre Padilha — o filho pródigo, bêbado, literato, com aspirações revolucionárias — nem sobre Madalena, a professora de escola normal que, mesmo depois de se casar com um fazendeiro rico, não esquece dos pobres. Tampouco me deterei em outras figuras que seriam dignas de maior atenção, como Gondim, Brito, Padre Silvestre ou Dr. Magalhães. Não: o que eu quero mesmo é falar do Mendonça.
Mendonça é a primeira nêmesis de Paulo Honório — fazendeiro, dono da propriedade vizinha, Bom Sucesso, e aparentemente com uns bons vinte ou trinta anos a mais do que o protagonista. Após enganar e endividar Padilha, Paulo Honório assume São Bernardo, que se encontrava em estado lastimoso: a propriedade pouco produzia, a casa grande estava em ruínas, o mato cobria os campos — e, sobretudo, as cercas de Bom Sucesso avançavam sobre o terreno de São Bernardo, diminuindo-o a cada ano. Há referências a Mendonça já nos primeiros capítulos, mas como personagem ele só aparece confrontando Paulo Honório no início, logo após a aquisição da fazenda, justamente numa questão de fronteiras — uma cerca que deveria ser derrubada ou consertada.
Mendonça é o típico coronel nordestino. Seu status como proprietário de latifúndio o coloca no topo da pirâmide social que funciona através do sistema clientelista: ao controlar os eleitores — ou seja, as pessoas que trabalham e vivem sob sua proteção e que votam no partido que ele indica —, Mendonça exerce um poder que vai muito além das cercas de Bom Sucesso. Quantas pessoas moram ali não sabemos, mas o velho é viúvo e tem duas filhas; além disso, certamente há trabalhadores, caboclos e agregados, muitos deles homens semianalfabetizados com direito ao voto — e, portanto, seus eleitores no famoso sistema do voto de cabresto, peça intrínseca da República Velha brasileira. Mendonça parece ser de família antiga: a fazenda de Bom Sucesso tem um engenho, o que indica que produziu no passado — ou ainda produzia — cana-de-açúcar. Paulo Honório não tem esse interesse; São Bernardo é desenvolvida tendo em mente a fruticultura, o cultivo de mamona, o gado importado, a pedreira, a serraria. Mendonça é, dessa maneira, ao mesmo tempo um ponto de chegada — aquilo que Paulo Honório deseja ser ao findar sua ascensão social — e o inverso do modelo que ele imagina para um grande proprietário.
Entre os dois homens há uma relação difícil, feita de conflito e de um respeito que não ousa dizer o nome. Interessante notar que o nome Mendonça traz dentro de si tanto medo quanto onça. Para mantermos a metáfora animalesca: se Paulo Honório não baixa a crista nos confrontos com o velho latifundiário, é claro que também o respeita — e que o medo toma aqui forma concreta no perigo da violência, na presença constante da possibilidade de uma tocaia, de um tiro saindo da mata, numa sociedade em que os fortes ainda lançam mão de meios violentos para obterem o que desejam.
O gênio de Graciliano na descrição de Mendonça está em como sua aparência física denota seus traços psicológicos. Mendonça possui barba branca como a de um cordeiro; ao mesmo tempo, os dentes caninos são amarelados e pontiagudos. Está aí desenhada, com uma imagem só, a figura do lobo em pele de cordeiro. A atitude do velho coronel confirma essa leitura: torna-se excessivamente amável quando as circunstâncias o convencem. Numa passagem especialmente importante do início do romance, Paulo Honório vai à casa de Mendonça visitá-lo alguns dias antes das eleições. Até então, já sabemos que gente de Bom Sucesso tem andado rondando a casa grande de São Bernardo — e que à noite sombras e assobios cercam a moradia de Paulo Honório, defendida por Casimiro Lopes. Falando sobre como passou a noite, Mendonça diz que teve sonhos atribulados, que não dormiu bem; nesse momento, esmaga um pernilongo que o havia picado. Ao descrevê-lo, o velho Graciliano escreve:
pernilongo como bala
Graciliano Ramos, São BernardoAntes de se retirar, Paulo Honório faz referência às eleições e diz que matará um cordeiro no dia para comemorar com os eleitores, na volta da vila. No domingo seguinte, depois de votar, Mendonça recebe uma bala no peito e morre perto de Bom Sucesso.
É inegável a imagem do sacrifício do cordeiro — interpolada com o cabrito que Paulo Honório mandou matar no mesmo dia. A alusão cristã ao sacrifício, ao holocausto, é reforçada pelo detalhe de que Paulo Honório estava na igreja no momento do acontecimento — não rezando, evidentemente, mas discutindo questões prosaicas como o preço de um sino com o Padre Silvestre.
VI.
É lugar-comum, mas por ser verdadeiro, vou repeti-lo aqui: traduzir é recriar. Para verter São Bernardo ao japonês, tivemos que esmiuçá-lo em seus mínimos detalhes. É, assim, um trabalho de desconstrução. A imagem que me vem à cabeça é desmanchar uma peça de roupa: retirar cada ponto, um por um, para ver como o vestido é feito.6 A pressão de traduzir fielmente — e não literalmente, pois são coisas distintas: o sabor do texto deve ser reproduzido em japonês, e aí está o desafio de fazer as personagens falarem de maneira convincente e não como uma mera tradução automática — fez com que lêssemos e relêssemos a mesma passagem dezenas de vezes. Períodos que seriam lidos rapidamente mesmo por um leitor atencioso foram assim analisados e seus correspondentes em japonês procurados a custo. Como já aludi neste texto, nem tudo ficou perfeito, mas cada termo foi escolhido propositalmente. Fazendo o mea culpa: se houver algum erro, a culpa é nossa.
Por fim, noto que propositalmente não inserimos notas de rodapé no texto. O que é de absoluta necessidade para o entendimento — um conhecimento básico das relações clientelistas, por exemplo — foi incluído no posfácio; de resto, é confiar no leitor japonês, tarimbado em literatura estrangeira há muito, e torcer para que o trabalho seja bem recebido. Insônia já está quase pronto; Angústia está na fila. Leiamos.
- Os artigos são, respectivamente: KIBE, Masayuki. "Literatura do Nordeste brasileiro e imagens de mulheres resistentes: a partir de São Bernardo, de Graciliano Ramos." Boletim do Centro de Estudos Latino-Americanos, n. 25, pp. 1–19; e "Dissecando a 'voz' de Paulo Honório: sobre a tradução da narração em São Bernardo, de Graciliano Ramos." Estudos Brasileiros, n. 20, pp. 45–70. ↩
- Recomendo aqui o delicioso ensaio "O 'boku' que não usa 'ore'", de Gregory Kherznejat, incluído em Palavras em Trânsito (Kotoba no Toranjitto), Kōdansha, 2025, pp. 29–35. ↩
- Obviamente essa dificuldade não foi só nossa. Interessantíssima a entrevista com Padma Viswanathan, tradutora da segunda versão do romance para o inglês. ↩
- Os dicionários Aurélio, Houaiss e Aulete foram indispensáveis (não incluo aqui as edições). Além dos mesmos, há diversos Léxicos de Graciliano Ramos, em geral e por obra, disponíveis na internet. Padma, na entrevista acima, lista um importante que também usamos: CARVALHO, Maria da Salete Figueiredo de; PONTES, Maria das Neves Alcântara de. Glossário Regional/Popular da Obra São Bernardo, de Graciliano Ramos. 2008. Deixo aqui nossos profundos agradecimentos aos pesquisadores e alunos que escreveram TCCs, Dissertações e Teses sobre o assunto. Open Access é mesmo o âmago do trabalho científico. ↩
- Othon Bastos estrelou também a adaptação cinematográfica de Fogo Morto, o clássico romance de José Lins do Rego, dirigida por Marcos Farias em 1976. Nela, o ator interpreta o Coronel Lula de Holanda, latifundiário em decadência no interior da Paraíba de 1910. O filme conta ainda com Jofre Soares — que, curiosamente, também aparece em São Bernardo no papel do Padre Silvestre — e Rafael de Carvalho. Produzido pela Embrafilme, o longa é tecnicamente competente, mas bem menos memorável do que a adaptação de Hirszman: críticos da época já apontavam um ritmo excessivamente lento e uma dependência da narração em voz over que acaba por sufocar a imagem. O romance de Lins do Rego merecia melhor sorte nas telas. ↩
- Curiosamente, uma imagem similar está presente em "My Balenciaga", de Han Ong, onde um suposto vestido do mestre é desmanchado para conferir-se sua autenticidade. Essa história apareceu recentemente em The New Yorker. Vale a pena conferir. ↩